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"Um disco para entortar todo mundo"

Um disco para entortar todo mundo
por Zuza Homem de Mello
Elis Regina, cantora, morreu em 19/1/1982, aos 36 anos, vítima de overdose de álcool e cocaína
Triiiim... Triiim... Triiiiim... - Guinga? É a Elis. Pô, cara, não te acho mais? Agora é só festival de jazz na Itália, pela Europa? O quê? Não, não vai nem começar a falar de futebol porque o Grêmio está que é um bagaço. Vai me dizer que o Vascão está beleza? Olha, agora eu sou Goiás, os caras estão dando uma aula de ataque, como foi com o São Caetano, se lembra?
Olha aí, bicho: estou precisando de umas músicas para o disco que vou gravar no ano que vem. Umas inéditas daquela gavetinha que você tem aí, pode ser da época do Paulinho Pinheiro, também quero outra com letra do Aldir. Quero os craques, para mostrar para essa molecada como é que se faz letra de música.
O quê? Luiz Felipe Gama? Bom, manda uma para eu ver se gosto. Já recebi uma da Fátima Guedes que é um arraso, outra do Moacyr Luz que é demais, uma do Milton, baixou o santo no Bituca, tem uma do Chico Pinheiro para arrebentar, tem um novinho, o Edu Kmeip, que ainda estou ouvindo, e outra do João Bosco com o filho dele. E vou atrás do Victor Martins, fazer ele tirar a bunda daquela cadeira na Velas e fazer uma música com o Ivan; pô, bicho os caras fizeram a maior parceria e agora estão fazendo doce, qual é a deles?
O Chico também me prometeu uma, ficou animadíssimo com o disco que você fez, terminou o "Budapeste" e está a fim de compor. Recebi uma do Garfunkel, precisamos dar uma força para ele, cara, o cara merece. Vou receber um samba do Elton naquela linha de tremendo melodista. Vou até falar com o Carlinhos Lyra, que também é melodista do cacete, para descolar algum troço, como fez com aquela letra da Dolores.
Vai ser um disco de piano e vozes. Manja aquele disco "Duets", do Sinatra? Vou convidar essa porrada de cantoras novas que estão sem espaço e gravar uma faixa com cada uma. Ná Ozetti, Luciana Alves, Jussara Silveira, Mônica Salmaso, Simone Guimarães, Rita Ribeiro, até a Rosinha Passos vai entrar, a tropa toda. Cada uma entra primeiro, dá o recado e aí eu venho, entorto uma por uma, todas elas.
É para calar a boca desses negos que ainda ficam dizendo que não admito concorrência, que acabei com a carreira da Claudia; agora sou da paz, paz e ecologia. Não é PT é P.E., tá tudo muito poluído, essa negada das rádios tem mais é que aprender o que é música, pô. Quero mais é que eles se ferrem.
Também vou convidar os melhores pianistas do Brasil, Cristóvão, Gilson, Antonio Adolfo, Leandro Braga e o Geraldo Flach, que é para saberem quem é esse gaúcho do caramba. Se me der na telha, sou capaz até de convidar aquele sacana do César, que está por aqui fazendo show no Blue Note. O quê? Não vou assistir coisa nenhuma, convido ele para tocar no disco e fim.
Depois de amanhã, vou fazer um concerto do cacete no Lincoln Center com a Banda Mantiqueira, do Proveta, e aquelas feras de São Paulo; os caras são demais, vamos quebrar tudo, deixar esses gringos falando sozinhos, quero só ver a cara do Marsalis depois do concerto. Parece que ele quer me convidar para cantar com a banda. E eu vou?
Bicho, os caras aqui estão doidos, não tem mais cantora nesse país, precisamos exportar as nossas, tem umas bostinhas como a Norah Jones, é tudo armação, a mulher não é de nada.
Vou te pedir mais um favor, me arranja uma música que eu quero mandar para a Maria Rita. O repertório dela tá mais para Grêmio que para Santos. Vamos dar uma força que ela merece, ainda vou fazer um dueto com ela, só que num outro disco, já imaginou mãe e filha cantando? As duas? Vou entortar ela também, não tem conversa, sou a maior.
Guinga? Você sumiu? Tá aí ainda? Aqui tá tudo bem, estou louca para voltar, já estou com o saco cheio desses gringos. Vou ter que desligar, porque o mala do empresário vai chegar, o cara só pensa em grana, meu. Bicho, vê se cata essas músicas naquela gaveta e manda lá para São Paulo. Na semana que vem te ligo de lá. Um beijo na fuça e outro nessa cabecinha de ouro. Tchau bicho, e vê se dá um jeito nesse teu Vasco de merda.
Zuza Homem de Mello, 70, é musicólogo e crítico musical. Guinga, o interlocutor da conversa fictícia, é Carlos Althier de Souza Lemos Escobar, 53, violonista e compositor carioca.
Revista da Folha - Jornal Folha de São Paulo 04/01/2004
Escrito por Philip Coy às 11h56
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Mais fotos raras
Saudade do Brasil - 1980

Escrito por Philip Coy às 22h17
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Um poço de emoções
Por Marcos Paulo Bin

Elis Regina Carvalho Costa. O nome de batismo da maior cantora que o país conheceu também dá título ao melhor registro audiovisual da gaúcha que, prematuramente, deixou a música brasileira em 19 de janeiro de 1982, aos 36 anos.
Lançado pela Trama, em parceria com a Som Livre e a Globo Marcas, o DVD Elis Regina Carvalho Costa resgata a participação de Elis no programa “Grandes Nomes”, série de musicais exibidos pela Rede Globo, em 1980, com direção de Daniel Filho.
Este é o terceiro DVD da Pimentinha, o primeiro em cores. Os anteriores foram Elis & Tom, reedição do LP de 74 em DVD-áudio, formato que não emplacou no mercado, e Programa Ensaio, cujas imagens são em preto e branco.
Nos estúdios da Rede Globo, Daniel Filho montou um palco em forma de picadeiro, no qual Elis Regina canta seus sucessos com o público ao redor, como se estivesse realmente em um circo.
E, neste espetáculo, o respeitável público assiste a uma apresentação histórica de Elis Regina. Dosando características como bom humor, simpatia e emoção, aliadas à voz inconfundível, em grande forma, a Pimentinha valeu-se da audiência do programa para derrubar algumas críticas que sofria na época, não como cantora, pois era uma unanimidade nacional, mas como pessoa.
Quem não gostava da mulher Elis Regina, dona de personalidade forte, sem medo de dizer o que pensava, teve de se render ao poço fundo de emoções que jorravam de sua interpretação.
O momento mais marcante do DVD está em Atrás da Porta, canção de Chico Buarque e Francis Hime. Vivendo problemas de relacionamento com o marido, o pianista César Camargo Mariano – com quem gerou os filhos Pedro Mariano e Maria Rita, hoje nomes consagrados da MPB – Elis começa a se emocionar na música anterior, a bela Essa Mulher, de Joyce e Ana Terra.
Quando emenda Atrás da Porta, Elis é tomada de grande emoção. Misturando uma atuação teatral (ou circense) com a exposição de seus próprios sentimentos, ela interpreta com a alma cada verso escrito por Chico Buarque e musicado por Francis Hime, sentada em um banquinho.
Ao cantar versos fortes como “Quando olhaste bem nos olhos meus/ E o teu olhar era de adeus/ Juro que não acreditei, eu te estranhei/ Me debrucei sobre teu corpo e duvidei/ E me arrastei e te arranhei/ E me agarrei nos teus cabelos”, é como se um filme passasse na cabeça de Elis.
Ela se deixa envolver por aquele momento e canta a música inteira sob lágrimas. O público, reconhecendo a autenticidade da cena, aplaude de pé por longos segundos a maior cantora do Brasil.
“Nesse momento, a gente assiste a uma das melhores, mais emocionantes e verdadeiras interpretações de Elis”, descreve Daniel Filho, em entrevista nos extras do DVD.
Mais tarde, mantendo a tradição do programa, Elis chama um convidado para dividir o palco com ela. Para surpresa geral, o escolhido foi César Camargo, que chega bem-humorado e troca algumas palavras sussurrantes com a anfitriã.
O pianista acompanha Elis Regina em Modinha, de Tom e Vinicius, e Rebento, de Gilberto Gil. No dia seguinte, conta Daniel Filho, o casal foi à casa do diretor assistir ao programa e reatou o casamento.
Participação intensa do público
O DVD guarda outros grandes momentos. No primeiro bloco, de sambas, Elis canta as ótimas Querelas do Brasil, de Maurício Tapajós e Aldir Blanc, e Agora Tá, de Tunai e Sérgio Natureza, na qual imita Louis Armstrong.
No clássico O Bêbado e a Equilibrista, da dupla João Bosco e Aldir Blanc, Daniel Filho estimulou Elis a dar uma nova interpretação à música que ela tanto cantava e que já era um hino. A nova versão, bem diferente de outras conhecidas, tem a participação intensa do público.
Na canção seguinte, a belíssima Aos Nossos Filhos, de Ivan Lins e Vitor Martins, Elis mais uma vez solta toda a sua emoção, cantando sentada perto da platéia.
O programa termina com Redescobrir, de Gonzaguinha, em uma grande festa no picadeiro montado nos estúdios da Rede Globo. Seguindo a letra da música, Elis dá as mãos aos bailarinos e todos cantam juntos formando uma roda, que depois se transforma em uma fila que dá voltas pelo picadeiro, com a presença dos músicos e de pessoas da platéia.
Enquanto a festa acontece na parte de baixo do palco, Elis sobe as escadas e, de forma discreta, canta trechos da música Fascinação. E assim termina o espetáculo, hipnotizando quem o assistiu ao vivo, na época, e hoje, pela televisão, mais de 25 anos depois.
Escrito por Philip Coy às 22h01
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Fotos Raras
Encontrei algumas fotos de uma exposição em São Paulo que visitei sobre a Elis.
Muitas delas são pequenas demais para serem reproduzidas, mas vale a pena ver e rever algumas:



Escrito por Philip Coy às 09h20
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