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Arrastão
Folha de S. Paulo
São Paulo, quinta-feira, 8 de abril de 1965
"Arrastão" venceu fácil Festival, mas outra música de Vinicius não convenceu
"ARRASTA essa gente aí, Pimentinha." Elis Regina levou a serio o bilhete que Vinicius de Morais lhe mandou e fez com que "Arrastão", de autoria do poeta e Edu Lobo, tirasse o primeirissimo lugar no I Festival Nacional da Musica Popular Brasileira, ganhando para seus autores a quantia de 10 milhões de cruzeiros e um "berimbau de ouro", que Vinicius e Edu vão dispensar para presenteá-lo a Elis. Para surpresa e desagrado de muitos, a segunda colocada foi "Valsa do Amor Que Não Vem", de Baden Powell e tambem com letra de Vinicius que, assim, conseguiu abiscoitar mais 5 milhões e meio de cruzeiros para dividir com seu parceiro, alem de um "berimbau de prata dourada", que tambem vão deixar com Elizete Cardoso, a interprete da canção. Vera Brasil, a autora, e Claudete Soares, a interprete, diziam poucos momentos antes do concurso que ficariam felicissimas se "Eu Só Queria Ser" alcançasse um quinto lugar. Porem a musica arrebatou o terceiro, deixando Vera e Claudete paralisadas de tanta emoção. O quarto lugar foi "Queixa", defendido por Ciro Monteiro e feito por Zé Ketti, Sidnei Miller e Paulo Tiago. Wilson Simonal cantou a quinta classificada, que é "Cada Vez Mais Rio", de Luís Carlos Vinhas e Ronaldo Boscoli.

A letra
Desde que foi cantada em São Paulo, já havia uma nitida convicção de que "Arrastão" iria ser a vencedora. Elis Regina interpretou-a com uma força impressionante, acompanhando cada frase com o seu caracteristico movimentar-se de ombros e braços, dir-se-ia ela propria puxando um arrastão do mar, ajudada por Santa Barbara, Iemanjá e quantas divindades ela evoca na letra de Vinicius, que é a seguinte: "He, tem jangada no mar, He, hoje tem arrastão, He, todo mundo pescar. J'ouviu? Olha o arrastão entrando no mar sem fim, He, meu irmão, me traz Iemanjá pra mim. Nhá Santa Barbara, me abençoai, Quero me casar com Janaina. He, puxa bem devagar, He, já vem vindo o arrastão, He, é a rainha do mar. Vem, vem na rede João, pra mim... Valha-me meu Nosso Senhor do Bonfim, Nunca, jamais, se viu tanto peixe assim."
Segundo não convenceu
Se o primeiro lugar de Edu e Vinicius foi recebido com o maior entusiasmo, sem nenhuma discordancia, nem do juri, nem do publico, o mesmo não se deu com a segunda classificação, de Baden e do poeta, que, desta maneira, cercou o bicho por todos os lados. A musica foi considerada mediocre. Muita gente perguntava-se a razão da premiação, e só a viu na interpretação dessa magistral cantora que é Elizete Cardoso. Para muitos a famosa dupla nunca fez musica tão insossa e sem graça, tanto na melodia quanto na letra. Esperava o publico que, em lugar dela, fosse classificada a canção "Por Quem Morrer de Amor", de Ronaldo Boscoli e Roberto Menescal, cantada excelentemente por Peri Ribeiro. Dois membros do juri nos diziam depois que a desclassificação fôra devida a uma parte da letra que tem uma incongruencia: "Só vive quem já morreu de amor". Ora, quem já morreu, mesmo de amor, não pode evidentemente viver. Os terceiro e quarto lugares tambem foram bem recebidos. Mas em lugar da musica cantada por Simonal, que entrou em quinto, todo mundo esperava que fosse "Carnaval", de Chico Buarque de Holanda, defendida por Geraldo Vandré. Tambem causou estranheza não entrar "Jangadeiro", de João do Vale, cantada por Catulo de Paula. É curioso, pois ela era, juntamente com "Arrastão", uma das favoritas ao primeiro lugar.
Simonal não gostou
Simonal não ficou satisfeito com o resultado do Festival. Tanto não ficou que na hora em que Bibi Ferreira chamou ao palco os cinco premiados, Simonal recusou-se a comparecer. Simonal tem um ponto de vista muito pessoal. Justificou seu descontentamento com o resultado dizendo que "Arrastão" não podia ganhar porque não era musica popular e o concurso era desse tipo de musica. "Arrastão" para ele é regional e, sendo assim, não podia entrar num concurso cujas vencedoras devem ser entendidas do Oiapoc ao Chuí. Coisas de artista.

Na casa de Vinicius
Logo que acabou de receber os cumprimentos, Elis Regina foi para a casa de Vinicius, que ficou assistindo ao desenrolar do certame pela televisão. O poeta estava cercado por um clã de artistas e de gente jovem, entre mil e um copos de uisque, naturalmente. Edu Lobo, seu parceiro, encontrava-se aí em São Paulo, ultimando os preparativos para a estréia de "Zumbi, Rei dos Palmares". Não foi possível ao poeta localizá-lo para a comunicação de que os dois se tinham tornado milionarios da noite para o dia. Da noite para o dia é figura, porque "Arrastão" foi feita em apenas dez minutos de encontro entre os dois.
Positivo
Apesar de muitas falhas de organização, do comportamento tendencioso de alguns membros do juri, o I Festival Nacional da Musica Popular Brasileira foi dos mais positivos. Pela primeira vez firmas comerciais resolveram inverter parte de suas verbas de propaganda numa promoção que premia o esforço de compositores populares, e até, se bem encaminhada, projetará o Brasil no exterior. Vamos partir agora para o proximo, esperando que o povo se interesse por ele, já que é sua alma e sua poesia que estão em jogo.
Escrito por Philip Coy às 07h25
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Raimundo Fagner

Elis Regina de Carvalho Costa foi a pessoa mais importante na carreira de Raimundo Fagner. Foi ela que lhe deu abrigo quando ele não tinha nem onde dormir ou o que comer. Elis hospedou Raimundo Fagner em sua casa e passou a incluir no roteiro dos shows, músicas suas e do parceiro Belchior, como Noves Fora e Mucuripe, esta última gravada por ela em 1972 e que realmente abriu as portas para o novato Raimundo Fagner.

Nascida em Porto Alegre, no dia 17 de março de 1945, Elis Regina começou a cantar cedo. Da estréia - acontecida aos 7 anos - até os 11 anos, cantou semanalmente em um programa de rádio chamado Clube do Guri. E apesar da resistência da família, aos 13 anos assinou contrato com a Rádio Gaúcha, de Porto Alegre e aos 15 anos gravou seu 1º elepê intitulado ''Viva a Brotolândia''.

Ao morrer, aos 36 anos, em 19 de janeiro de 1982, Elis Regina deixou mais de 30 discos gravados e infinidades de sucessos. Acima de tudo, com sua voz marcante e peculiar interpretação, Elis Regina deixou alguns clássicos imortais entre muitos: Arrastão (Edu Lobo e Vinícius de Moraes), Canção da América (Milton Nascimento e Fernando Brant), Como Nossos Pais (Belchior), Atrás da Porta (Francis Hime e Chico Buarque), Romaria (Renato Teixeira), O Bêbado e a Equilibrista (João Bosco e Aldir Blanc), Madalena (Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza), Águas de Março (Tom Jobim).

Para Carô Murgel, Elis Regina ''foi, sem dúvida, a maior cantora brasileira de todos os tempos. Com técnica e garra, lançou alguns dos principais compositores brasileiros, como João Bosco e Aldir Blanc, Renato Teixeira, Fátima Guedes - só não lançou Chico Buarque porque resolveu pensar sobre o assunto - Nara Leão foi mais rápida. A 'pimentinha', como era chamada, tinha - como João Gilberto - a perfeição como meta. Exigia muito de seus músicos e compositores, exigia de sua gravadora, exigia de sua voz. Ganhávamos nós, o público. Não foi sempre assim - quando veio do Rio Grande do Sul tentou carreira no Rio de Janeiro - não foi pra frente. Seus primeiros discos são repletos das exigências da mídia, Elis teve que cantar o que vendia na época. Transferindo-se para São Paulo, encontrou a cidade de braços abertos. Foi aqui que Elis chegou a perfeição, e foi aqui que se transformou numa tradição, tal qual sua amiga Rita Lee. Elis virou São Paulo, que a acolheu e a recolheu, quando se foi aos 36 anos, em 19 de janeiro de 1982. Foi a primeira pessoa que inscreveu sua voz como instrumento, na Ordem dos Músicos do Brasil. E era. A voz de Elis soava como instrumento afinado, não perdendo, nem por um minuto, o carisma e a emoção em cada canção. Envolveu-se com tudo de forma radical - com a música, com a política, com a vida. Maldita para muitos, Elis tinha sempre a frase certeira, a mente afiada, propósitos firmes: 'Cara feia pra mim é bode... Sou mais ardida que pimenta!'.''

Escrito por Philip Coy às 11h42
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